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1+1=1

por Nunovsky Ops, em 27.05.20

O título deste post é da autoria de Almada Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, que foi desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa até aos nossos dias. A referencia a "1+1=1" vem na sequencia de uma conferencia dada por Almada-Negreiros no Teatro Almeida Garrett (atual D.Maria II) em 1932 onde critica aqueles que diziam que «o individualismo morreu e que o coletivismo ganhou», e onde afirmava que «isolar o que seja  do próprio conjunto a que pertence tudo é fazer disso mesmo uma direção proibida

(Fica sempre bem um apontamento cultural... e ajuda a manter a fama de intelectualóide...)

Isto vem a propósito da polémica desenvolvida ontem entre a TAP e os municípios das Regiões Norte e Centro de Portugal... Este é um caso típico em que as parcelas desta adição estão certas, isto numa análise despudorada e isenta. Sim, ambas estão certas nas suas posições e reivindicações. Pode parecer contraditório mas não é...

A Comissão Executiva da TAP tem como objetivo a boa gestão da companhia de forma a maximizar os proveitos e minimizar os custos. Assim, se a empresa está a navegar em mares agitadissimos, com quase a totalidade da sua frota no chão e sem receitas a entrar em caixa, faz o que a boa gestão manda que é usar os seus recursos com parcimónia. O dinheiro não abunda e, apesar do pedido de ajuda ao Estado ter sido feito no inicio de Abril, o grupo de estudo para esta ajuda só foi criado no inicio da segunda quinzena de Maio. Assim, o dinheiro não deve chegar para as necessidades mais próximas...

Todas as outras companhias de bandeira estão a centralizar operações (a BA centralizou as operações em LHR, a AF centralizou em CDG etc...) e os custos de operação diferem de companhia para companhia (custos mais baixos nas low-cost) o que interfere na rentabilidade a nível de ocupação média das aeronaves. Daí a racionalidade da entrada em alguns mercados e da ausência de oferta noutros. Não é de hoje que esta tem sido a política desta Comissão Executiva onde quando não existe procura os voos são suprimidos (utilizando linguagem ferroviária). A celebre rota Porto-Lyon é disso um exemplo: foi cancelada antes de existir sequer. Motivo: fraca procura.

Por outro lado, as reivindicações do grupo de municípios do Norte e Centro são mais do que racionais e justas. Se no passado a TAP desinvestiu no Porto, a região tratou de assegurar outras opções para os seus projetos com subsidios para a captação de outras companhias. A TAP recuou e voltou a investir. A região Norte perdoou mas não esqueceu. Agora todos os municipios estão com graves situações economico-sociais nas mãos. As empresas dos seus concelhos estão a asfixiar com esta pandemia e todos querem fazer a retoma da economia o mais rapidamente possível. Precisam de poder escoar os seus produtos, poder vender as suas marcas no estrangeiro e receber turistas para alavancar toda uma economia. Para isso, nada melhor que usar um ponta-de-lança de peso, com estatuto e prestigio: a TAP. Alem do mais, trata-se de uma empresa onde 50% do capital é do Estado e, apesar de existir um contrato onde os atos de gestão são privados, estes são tempos de exceção. Acrescente-se ainda o facto da TAP precisar de uma injeção de apoios do Estado na ordem dos 1000 milhões de euros. Assim, e se a TAP vai ser ajudada pelo Estado (todos nós) faz todo o sentido usar a TAP para desenvolver a retoma harmoniosa de todo o território nacional.

Então o que está a falhar nesta simples soma? A resposta é o Governo. Além de estarem assustadíssimos com o que está a acontecer e completamente desnorteados, não têm dinheiro e não têm qualquer tipo de estratégia. Só assim se explica que o Turismo do Porto e Norte se tenha juntado ao protesto dos municípios e o Turismo de Portugal se tenha remetido ao completo silêncio. Sabe-se que a TAP colocou todos os seus recursos à disposição deste organismo e os resultados são os que se sabem...

O Governo através da Secretaria de Estado do Turismo e do Turismo de Portugal deveriam ter um plano estratégico integrado envolvendo todas as regiões de Turismo, todos os players deste negócio e a TAP de forma a que todos remassem para o mesmo lado e usassem todas as sinergias. Iria ter custos? Claro que sim mas sob a forma de investimento e se calhar o "comprar o que é português" iria ter mais sentido... A estratégia do Algarve é similar à do Norte? E Lisboa? E a Madeira? Vão todos fazer concorrência uns aos outros?E porque é que o Governo Regional do Açores adjudicou à Ryanair a promoção do arquipélago no Reino Unido?

Agora que o caldo está entornado, vamos assistir a jogos de poder e exercícios de demagogia e hipocrisia... Mais uma vez à boa maneira portuguesa...

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publicado às 11:30


1 comentário

De Anónimo a 28.05.2020 às 10:25

No norte ninguém necessita especificamente da TAP. Quando a TAP decidiu concentrar os seus voos na Portela, os autarcas do norte não ficaram nada satisfeitos. Nem eles nem os empresários da região que é onde a indústria nacional para exportação se encontra.
Na altura o governo evitou polémicas. A centralização até acaba por ir ao encontro do desejo do governo. Uma Portela saturada é um bom motivo para se avançar com um novo aeroporto na grande Lisboa.
A reação de António Costa ao anúncio das rotas da TAP não teve nenhuma crítica ao facto da companhia aérea nacional praticamente só voar de Lisboa, tendo apenas se limitado a dizer que as rotas não deviam ter sido anunciadas sem a autorização das autoridades.
Quando ao Norte (que é muito mais vasto que a área metropolitana do Porto), mais uma vez vai ter que esperar que companhias aéreas estrangeiras, também elas públicas e por isso sem fazer nada por caridade, substituam mais uma vez a TAP.
Quando a TAP abandonou a rota Porto-Milão porque, alegadamente, não tinha procura, a Ryanair substituiu-a com tanto sucesso que a própria TAP, mais tarde, retomou essa mesma rota. Várias rotas que eram da TAP ficaram para outras empresas. Outras rotas ainda implicam uma escala em Lisboa... ou em Madrid. Às vezes mesmo com vontade, o que é nacional não está disponível. Os nossos euros vão para uma Iberia ou Lufthansa e o aeroporto para voos internacionais acaba por ser Barajas, numa capital que até nos costuma respeitar mais do que Lisboa.
O que o Norte, ou qualquer outra região que só é recordada aquando das eleições, quer é que dinheiro público que nos sai dos bolsos, não seja usado para pagar a uma empresa que, ano após ano, não nos serve.

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